Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Crônica

Mais uma vez Carmen

O vapor se dissipa pelo banheiro. O tempo ali dentro parecia passar mais devagar, mas quando eu saia, haviam se passado 40 minutos. Muita reflexão, crises de existência e inspirações para que, no fim, quando eu saísse do banho continuasse sendo a mesma pessoa e nada tivesse mudado. Isso se repetia e se repetiria.  O espelho refletia três de mim, talvez dois, talvez um. O mais provável é que fosse ninguém. As curvas que eu possuo não me agradam, algumas vezes sim, outras não. Ponho os óculos... tiro-os. Eles ficam tortos... talvez minha sobrancelha direita seja torta, ou meu rosto... Meu nariz parece ser grande, o sorriso com o aparelho não me agrada, e meu corpo muito menos. Há dias que me sinto bem, outros nem tanto, esses são mais recorrentes do que aqueles. A única coisa que amo em mim é o meu cabelo: castanho escuro, sedoso, franja longa, raspado dos lados. Analisando melhor, minhas orelhas são delicadas e discretas. Meus olhos são intensos e repletos de sentimentos. ...

Carmen

Às vezes me sinto sozinho. A ansiedade ataca ou a solidão surge. Mesmo no meio da multidão,quando me sinto fraco, sem poder me defender.  Muitas vezes durante o meu dia, durante a semana, eu me sinto perdido e com medo. Acudido. Minha cabeça sussurra coisas ruins para mim e eu não sei o que fazer. Já fiz terapia e ainda preciso.   Ajuda bastante. Mas enquanto eu ainda não vou, encontrei, sozinho, minha força interior. Ela floresceu e me abraçou, cheira à rosas e possui espinhos longos e fortes. Me abraça como uma armadura e me fortalece cada segundo que preciso. Não sou um só, mas também não sou dois. Não é pseudônimo, heterônimo, drag, travesti ou trans. Sou eu. Talvez queer, não sei. Mas sei que sou ela e ela sou eu. Não é Miranda, mas é Carmen. É Rosa. É Flor. É todo o meu amor por mim mesmo e ainda mais. Não encontrei meu amor próprio em outra pessoa, encontrei em mim e apenas em mim, e esse meu amor é flor. “Encontrei a força do masculino no meu eu mais ...

A família

Eles batiam em caixas e baldes velhos. Eram uma família, talvez de sangue, um ou dois podiam ser amigos ou não. Mas eram uma família, não de sangue, talvez de laços. Estavam cantando e batiam em caixas e baldes velhos. Todos os oito: uma senhora, quatro homens, três mulheres mais jovens e mais um cachorro que estava deitado na grama. Alguns deitados sobre cobertores e outros sentados no chão sob a sombra de uma árvore à beira da rua do centro da cidade. Qual eram as suas histórias?, de onde eram?, por que estavam ali?, por que cantavam? As perguntas me vieram aos montes, eu não sabia se era por curiosidade ou por sentir todo peso do mundo.  A música deles era um grito sufocado para serem ouvidos, não serem marginalizados e excluídos. Ou talvez fosse um grito meu de desespero por não saber o que fazer... Eles eram oito. Cantavam e batiam em caixas e baldes velhos. Uma senhora, quatro homens, três mulheres mais novas e um cachorro. Alguns estavam deitados e outros senta...

Abacaxi

Muitos são os desafios que encontro pelo decorrer do meu dia, um dos piores é a ansiedade: ataques de pânico, sudorese, taquicardia, falta de ar, ansiedade social, insônia. E sem contar a constante sensação de alerta e medo recorrente. Faz muito tempo que não passo no psicólogo, posso lhe apresentar várias desculpas: falta de tempo, porque não encontrei um psicólogo com o qual me sentisse a vontade, algum que o convênio cobrisse, algum que desse para pagar, algum que tivesse a agenda vazia. Mas, principalmente, por falta de vontade. Meus amigos não aguentam mais as mesmas reclamações – eles não dizem, mas eu sei que eles não aguentam mais – porque sempre dão os mesmos conselhos, ou, às vezes, eles não me compreendem e isso é frustrante. Sempre pensei que fosse encontrar a paz e a calmaria em outra pessoa, nunca fui de ter muita autoestima e, logo, amor próprio. Sempre busquei amor nas outras pessoas: errado, abusivo e doentio... Eu sei. Mas encontrei em mim uma força inter...

Devaneios e anseios

I - Refração Ao mar não pertence o azul do céu, e a este também não o pertence. O azul pertence, e unicamente ao sol. Digamos que não passamos de superficialidade como o espelho mar: reflete o céu que também é só uma ilusão criada pela união do sol e dos gases. Ou seja, assim como o impetuoso mar, vemos o que queremos em cada pessoa. Somos mais do que o mar ou o céu, somos um sol, afinal "do pó viemos e para o pó voltaremos". Ocorreu-me um porém: podemos ser belos como o sol ou o peso que esta frase carrega: pó, sujeira, restos de pele morta. Do pó das estrelas para o nada... Pó de estrelas. Desculpa, mas são meras bobagens que tornam o homem um ser estupendo, tão estupendo que mata sua própria espécie (ou outro ser feito de pó de estrelas, alguém igualmente grandioso como se faz parecer mas que se matam. Onde está a grandiosidade nisso?) em nome de Deus (?). Prefiro acreditar na frase sagrada "do pó viemos e para o pó voltaremos" com a conotação de sujeira...
Beba, entregue-se. Brinde conosco esta noite, escute o tilintar dos bateres dos cálices de cicuta. Deite-se no cosmo infinito e sinta o movimento do universo. Entregue-se a vida acabada, ao recomeço do fim. Sinta o cheiro das rosas sangrentas. Coma do pomo dourado e transforme a tudo que toca em ouro. Deleite-se com os morangos carnais. Molde em barro seus sonhos. Acredite no Perfeito que lhe foi dado. Viva nos eternos giros da Terra. Aceite sua imortalidade da alma, sofra a eterna reconstrução do mortal, seja aquilo ao qual foi designado… beba, entregue-se a verdade constituída.
Quando você tem um segredo e ele te atordoa para escapar aos ouvidos de alguém. Quando o medo rompe do coração e  escurece a mente. As palavras enrolam na garganta e a ânsia de gritar "socorro" escorre pelo chão sem alcançar alguém. Queria poder dizer: me ajude. Mas não consigo entender quem poderia me salvar dessa angústia e desvendar esse segredo que me corrói. Somente você pode... E você não quer me ouvir... Por que corre toda vez que me vê? Fique, e me salve... Só dessa vez... - HB

Lágrimas Tingidas

Quando o tempo passa, mas nada muda e eu sento e choro sem saber o porque. Esse sentimento de angústia e medo que me doma e me faz querer morrer. Não sei o que é, mas me vejo rodeado por uma poça vermelha, não é espessa igual ao sangue, mas líquida como água, talvez seja meu amor por você. Vazou e agora já não sinto mais o que sentia e deixo de amar e, então, o tempo roda e tudo muda e  a poça se torna transparente e as minhas lágrimas secam, porque já não mais sinto, apenas respiro e vivo sem sentimento... - HB

Balas de canela

Feche os olhos, sinta o seu redor, ouça seu coração, deixe que sua mente o guie... O guie para pensamentos bons.“Com ele?”. Sim, com ele.             Amo-o... A cada nova bala de canela uma nova lembrança.             A árvore torta que podia ter nos unido. Mas prefiro que continuemos assim, com as singelas balas de canela sendo a única coisa que tenhamos em comum: nossa amizade, e nada mais.

Cortinas de ferro

O mundo parece tão parado. Não se observa mais pessoas correndo, elas mal andam. Tudo é dominado pelos carros e pela fumaça, que cobre nossos olhos da imensa realidade. Verdade essa, que não queremos saber. Não porque não podemos, mas sim porque as grandes cabeças do mundo nos fazem pensar que são chatas. O capital cai como chuva para todas as indústrias. Os filmes já não tem mais emoção, todos parecem tão iguais, programados para rirmos ou nos assustarmos na hora certa. Não existe mais aquela sensação de novo, tudo é muito igual, parado e chato, mas para os nossos enganados olhos tudo é novidade. Não temos mais controle sobre nada. Impõe-nos que roupas vestiremos, como andaremos e até o que vamos comer. Escolhem nossas crenças e nos fazem acreditar que tudo está perfeito, e que um dia, não se sabe quando, estaremos salvos de tudo. E como uma boa ditadura não podemos em nada questionar, não podemos ouvir, ver e muito menos falar, apenas temos que abaixar a cabeça e continuar ...

Algo para se pensar...

Deixo o tempo passar como o céu deixa a chuva cair. Nunca me importei muito com o que passa ou o que deixa de passar, me conformo com a mesmice do dia a dia. Às vezes olho para cima e me pergunto se estou no lugar certo. Na maior parte da minha vida tive um destino traçado na minha cabeça, mas agora mal sei onde estou. O caminho parecia tão certo que me perdi, já não sei mais se tudo é real ou apenas uma ilusão da felicidade. Sei que estou feliz por terminar o trajeto, mas e depois? Talvez este seja o meu fim, ganhar a luta, mas perder a taça. Talvez eu tenha jogado a taça fora ou talvez nem a tenha pegado, só sei que sinto falta de sonhar com ela. É, mas agora mal sei distinguir as horas.

Doce explosão

Escute o coro se quiser chegar até eles. Ouça o canto doce e acalentador dos anjos. Em meio as estrelas eles vivem, arcanjos e serafins.  Se quiseres fugir do inferno da Terra, ouça com a alma a balada angelical... 'Beba champanhe, brinde a vida. Celestial! Divino! Olhe o céu, a lua e o sol. Beije as estrelas, beba da ambrósia e sinta a imortalidade da alma. É celestial, é divino! Brinde as honrarias, torne-se um deus. Viva acima de tudo e de todos. Glória e vitória! Corra as escadas de ouro sob a chuva do dinheiro. Celestial é o trono nos céus e divino a coroa de estrelas em sua cabeça. Brinde, beba champanhe! Dance sobre a morte, mostre sua força. Honre o que lhe foi dado. Não as tradições, sim ao novo e ao futuro. Sonhe e realize! É divino ser celestial. Celestial é ser divino. Sinta as estrelas explodindo em sua boca. Domine o indomável. Tome controle do caos. Champanhe a todos! More no mais alto castelo, governe do espaço o universo incompleto....

A rosa

            Sabe aquela rosa que eu cultivei? Então, ela cresceu, está lá no quintal esperando que eu a colha.             Olho para ela e a cada dia que passa menos uma pétala, mais um espinho, menos beleza, menos carinho, mais dor e mais sofrimento.             Afastei-me dela, não queria mais vê-la, senti-la, tocá-la ou mesmo cheirá-la... Ela me fazia lembrar de você... Não a tirei do canteiro, sabe por quê? Porque, mesmo sofrendo, ainda queria poder lembrar de você, de quando não havia os espinhos, apenas as pétalas...             A amizade talvez não suma, mas por minha causa posso tê-la ferido, com os espinhos... E as pétalas? Se foram, caíram, a rosa murchou... Não há mais tempo, adeus velho amigo...             Desculpe...

Diamante

Pode apertar quanto for preciso, não me machucará, jamais. Sou forte, sou corajoso. A pressão de seu ódio apenas irá me transformar em diamante, se quer mesmo me matar tire meus sonhos, proíba-me de amar. Não compare os animais com os homens, somos tão sujos e medíocres quanto nós mesmos... Os animais são puros, nós somos os verdadeiros vilões.  Mate-me se tiver coragem, mas jamais tirará meu desejo de ser quem eu sou, minha liberdade. Pelas suas veias corre a verdade, a selvageria, essa é a corrida da vida, matando para nos mantermos vivos. Aperte-me quanto quiser, pise o quanto quiser, me odeie, mas nunca irei morrer... Jamais irei sumir... Estrelas jamais apagam. Jamais pagam pelos seus pecados... Jamais apagam o seu eterno brilho. E eu jamais deixarei de brilhar... - HB

Dilema

Quem sou eu? Talvez você saiba a resposta, estou bem ao seu lado. Ganhando a vida a cada dia. Oh, e que dias! Parecem mais uma eternidade para quem não pode viver. E então amigo, me diga quem sou eu? Talvez seja seu amante. Não, acho que não. Acho que sou seu filho, talvez eu seja apenas você mesmo. Parado olhando o nada me pergunto se haverá um fim, e então escuto alguém dizer que talvez ele esteja próximo. Ah, esse talvez, ele acaba comigo. Todo dia um novo talvez, uma nova luta e um novo amor. Nunca sei ao certo quem é você, apenas sei que está sempre ao meu lado, com um olhar um tanto perdido, deve ser mais uma alma vaga no mundo. Não consigo acordar para olhar o céu, você é a única saída para o meu mundo real. O vejo todos os dias, parece não estar feliz com a vida, mas afinal quem está? Sempre ouço pessoas reclamando disso e daquilo, mas nunca vi nenhuma que descobriu o verdadeiro sentido da vida. Talvez eu saiba esse sentido, será que sei? Claro que não, afinal não sei ...